
(imagem: reprodução)
O mínimo que devo fazer é agradecer públicamente à toda equipe do Hospital São Paulo, dando alguns dos meus argumentos, conforme segue.
Voce teria uma facilidade muito grande de definir qual oficina mecanica ou concessionária é considerada a melhor para a manutenção do seu carro. Mas se sentiria no meio de uma guerra psicológica quando tiver que decidir em qual hospital levar o seu ente mais querido. A situação ganha ares dramáticos se voce for a única pessoa responsável por tal decisão, numa condição em que o próprio paciente não tem meios de manifestar a sua vontade, de exercer as suas escolhas de forma autonoma. Então voce, o seu estado, a sua sanidade, a sua capacidade de discernir e decidir, são os responsáveis por uma vida. É uma responsabilidade muito grande, mesmo que se leve em consideração que os agentes que estão capacitados a manter essa vida sejam os médicos e não voce individualmente.
Assim, a vida de uma pessoa depende da sua escolha individual. Se voce acerta ela tem chances. Se voce não acerta as chances podem deixar de existir. E eu tinha em mente no dia 5 de Janeiro desse ano, justamente a noção de dar à minha mãe uma coisa que ela merece como nunca na sua vida – uma chance. E acertei na mosca quando no prosseguimento do processo vi a minha mãe nas mãos de autenticos anjos da guarda. Pode parece exagero meu, mas a condição dramática dos eventos (vários) me deixaram esse sentimento de forma clara.
Quero lembrar agora que o início de vida útil da minha mãe se deu no início dos anos 1950 na enfermaria da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, o mesmo local onde ela conheceu meu pai, acamado após cirurgia ortopédica, e onde tambem mais tarde eu vim ao mundo. É óbvio que uma pessoa dessas deve merecer um tratamento hospitalar à altura das suas reais necessidades. Especialmente se levarmos em consideração que se trata de uma pessoa que começou a sua vida cuidando de outros e que mais tarde teve que fazer o mesmo por outros mais.
No dia anterior à esse período de internação eu já tinha acumulado algum saber a respeito das condições da minha mãe, coisa que serviu de parametro empírico para interromper medicações no ambiente domiciliar, e tambem decidir onde levar em situação de emergencia. Percebi no dia anterior à internação um provável inicio de evento cardíaco. E como ela é matriculada no ambulatório de marcapasso do Hospital São Paulo, a decisão de levá-la ao PS desse hospital ficou bastante evidente para mim. Claro que eu esperava tambem que as outras questões do seu quadro clínico fossem observadas.
Com o auxílio do meu velho e estimado amigo Werner Heying, chegamos no dia 5 de Janeiro quase à meia noite no PS do HSP. Lá passamos eu e a minha mãe a noite toda acordados, aguardando uma definição baseada nos exames iniciais. E com o sol raiando veio a solicitação de proceder a internação. Aí eu já estava vendo que tinha acertado plenamente na escolha.
O primeiro momento em que comecei a sentir segurança foi quando o médico que a atendeu disse que ela não devia tomar nenhum dos medicamentos que eu já havia suspendido e que necessitava de medicação para a função cardíaca, coisa da qual não fazia uso.
Mais tarde, ainda na madrugada, ela foi levada à uma pequena sala para colher amostra de urina, retirada com sonda. Ali comecei a ter outra visão desse profissinalismo. A enfermeira, uma dessas a quem ninguem dá nada, deixou claro nos procedimentos que era muito profissional. Tive ali uma pequena decepção comigo mesmo ao constatar que os meus procedimentos eram insuficientes, por não ter sido devidamente orientado anteriormente no que diz respeito à manutenção diária da minha mãe. Com bastante agilidade e desenvoltura a enfemeira não apenas colheu a amostra mas tambem procedeu uma higiene no quadril, de uma forma bem diferente do que eu mesmo fazia.
Com a internação já determinada e procedida documentalmente, voltei ao corredor do PS e para a minha surpresa ela não estava mais lá. Foi tomar banho antes de ingressar na sala de observação. Então mais uma vez eu vi que as coisas ali seriam bem diferentes. Havia 3 pessoas dando banho nela. Vamos nos lembrar que estamos falando de um PS público, lugar que tem habitualmente uma fama nada agradável na população.
Poucos dias depois veio a confirmação concreta de que ela estava nas mãos mais apropriadas. Quando compareci para a visita diária ela não estava mais na enfermaria e sim na emergencia clinica. A pressão havia caído demais. Fui lá e pela abertura da porta vi o médico de braços cruzados em frente ao leito da minha mãe com os olhos pregados nela, tal e qual um soldado em guarda. O chamei, conversamos e ele me elucidou a gravidade da situação – risco de vida. Estamos falando aqui de um paciente com idade bem avançada, portador de patologia degenerativa irreversível. Uma situação muito complicada.
Pois ainda assim, usando o fiozinho de vida que restava naquela hora, conseguiram estabilizar e dali foi para a uti.
Desde o período do início da internação até o presente momento, perdi a conta de quantos médicos a assitiram e não seria mais capaz de listar os nomes. Mas posso afirmar com muita segurança que não apenas é uma equipe muito competente, muito bem orientada, como tambem muito conscientes do caráter humano em toda a conduta. Me impressionaram em todos esses aspectos.
A sequencia de eventos é muito extensa e não seria possível detalhar. Hoje, após mais de 30 dias de internação, com o estado ainda grave, alguns sucessos foram obtidos embora no meio de perdas significativas que são consequencia das condições de incrivel fragilidade do paciente. No dia de ontem fui abordado pela psicologa no horário de visita. Já não estranho mais essas novidades pois compreendi que o atendimento é dado ao paciente mas a relação com ele é efetivamente no ambito familiar. De uma forma tal que eu diria que essa conduta é um genuíno exemplo a ser veiculado.
Ainda vivendo o stress profundo de uma luta contínua por uma vida, me sinto muito inclinado a desde já agradecer do fundo do coração à toda equipe (são muitas pessoas), que dá sustentação à vida, conforto físico e psicológico, empenho nos procedimentos, interesse pela família, carinho no trato com o paciente e familiares, à pessoa que me deu a vida e que tambem já cuidou de mim quando eu ainda era completamente dependente de alguem.
Por isso resolvi definir essa incrível equipe como anjos da guarda de plantão. Com muito mérito, posso garantir. Sim, acertei na mosca nessa escolha.
À todos voces, meu muito obrigado pelo que já se fez e pelo que ainda há pela frente.
Como diria a minha própria mãe – “Deus te pague”.
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